
Dei meus primeiros sinais de futura ansiosa-compulsiva-preocupada-além-da-conta quando tinha apenas cinco anos e estava entrando na alfabetização. O ano mal havia começado e eu já ouvia o zum-zum sobre um assunto terrível: formatura. A formatura do ABC foi o primeiro problema grave que surgiu na minha vida, mas para quem pensa que a preocupação era o vestidinho ou o anel, engana-se: o transtorno era “o que eu faria depois da formatura?”
Vejam bem: eu tinha certeza plena e absoluta de que depois da alfabetização, não havia mais nada para estudar (pausa para os risos pelo ridículo). Só muito recentemente eu entendi de onde vinha tanta preocupação. Naquele mesmo ano meu pai se formava no curso de Direito depois de uns dez anos na universidade e me parecia louco para terminar aquilo. E de repente, o mesmo mal se abateria sobre mim? Que conversa, queria aquilo nada! Adorava a escola onde estudava e nada me faria sair dali. Formatura é formatura e eu precisava encontrar uma forma de evitá-la.
Bom, eu decidi que seria reprovada.
Isso. Exatamente.
Eu não me lembro bem, mas em algum momento desisti do projeto – acho que alguém me contou do vestido e do anel e a idéia de formatura até que se tornou um tanto atraente para aquela pirralha então com seis anos. E continuei estudando sem parar até os 23 anos, quando terminei minha pós-graduação – e pretendo em breve voltar aos bancos escolares. Mas desde então eu tenho buscado me certificar melhor sobre as conseqüências dessas coisas que, a princípio, parecem tão terríveis.
De qualquer forma, prestem bem atenção ao que vocês falam a uma criança. Sabe-se lá a qualidade do doidinho que você tem por perto...
P.S. Ah, identificação com a Mafalda...
Uma casa.
O que é uma casa?
É o símbolo de tantas exclamações: segurança, lar, família.
Se tudo mais der errado, haverá um lugar para onde voltar todos os dias.
Deve ser por isso que é tão difícil.
Primeiro vem o juntar-dinheiro: três anos vivendo apenas com metade da própria renda em nome de um projeto que às vezes parecia tão longe... É deixar de fazer um tantão de coisas que a gente necessita/precisa/quer/deseja... Porque há um sonho bem sólido, de paredes firmes e telhado resistente, a nossa frente.
Na verdade foi a ida a Cuba que virou cimento/tijolo/telha/cerâmica. Antes a passagem para a terra de Fidel. Depois a carta de crédito da Caixa Econômica. Quem seria mais cruel e ditador?
Depois veio a própria Caixa, que nos faz derrubar árvores e mais árvores todos os dias para fazer papel – tanto e tanto e tanto, mais alguns, por favor, que aqueles outros já venceram... e haja moedas para pagar a fotocopiadora. Isso sem falar nas horas sentados naquele sofá azul do andar de cima da agência Trincheiras-perto-do-trabalho-para-não-perder-tanto-tempo.
Espera.
No meio de tudo, tardes quentes ou de chuva em ruas desconhecidas, guiados por gente desconhecida, para ver quadros já tão conhecidos: pequeno, quente, sol demais, vento de menos, caro, térreo, feio, condomínio alto, condomínio desorganizado, condomínio péssimo, mal-acabado, infiltração...
Até que chega a menina dos olhos: três quartos, vento até dizer basta, cozinha decente, sala para receber amigos, varanda com tela de proteção – ah, varanda com tela de proteção já é quase pedir demais. E os armários da cozinha? Fecha negócio, assina contrato, paga sinal.
Espera.
Dois meses, uma resma de papel e muita dor de cabeça depois, ligam: venha assinar o contrato segunda-feira. É de não acreditar. Duas horas de espera no bom e velho – que pelo menos é confortável – sofá azul. Rubrica todas as páginas e assina na última. Cópias para mim, cópias para você, cópias para vendedor. Vá na prefeitura, pague ITBI. Vá no cartório, passe pra seu nome.
E agora o que resta é uma estranha sensação de vazio. Não tenho mais este problema. Acabou. Findo. É meu agora. Perfeitinho – e meu, tão meu. Mas o cansaço teima em não me deixar raciocinar.
Estourem a champanhe. Sou uma mulher com casa própria!
Minha capacidade de adequação às vezes chega aos extremos – ela se alia à minha pseudo capacidade de “esquecimento” e ao mesmo tempo me faz perder totalmente a noção do tempo.
Desde que troquei de emprego, há exatos dois meses e duas semanas, vivo nesta ida-e-vinda na sensação de “tempo que passa rápido demais” e “tempo que se arrasta”. As manhãs, que não rendiam nada nos tempos de repórter, agora demoram oito horas para terminarem ao meio-dia. A hora do almoço agora se divide entre “e o que eu faço agora com esta última meia hora?” e “Jesus, eu já deveria estar no escritório!”. Mas é o tempo macro que endoida mais.
Dia desses recebi convite para o lançamento do novo livro do meu amigo Astier Basílio (pausa para o merchan: “Eu sou mais veneno que paisagem”), que acontece esta noite e marquei na agenda como aqueles compromissos imperdíveis. Pois é. Só ao abrir o jornal de hoje percebi que... é hoje. “Meu Deus, eu pensei que era só semana que vem.” Mas era só semana que vem – semana passada, que passou e eu nem vi!
Ao mesmo tempo, olho para cima de vez em quando e vejo a antena da TV Cabo Branco sendo recuperada, uma obra que começou uma semana antes do meu pedido de demissão. “Como essa obra está demorando!” “Nossa, já vai aí?”, como se eu tivesse deixado de conviver com a danada há apenas algumas semanas ou como se fizesse anos.
E aí meus pais fazem 29 anos de casados, o que me faz lembrar que só faltam seis meses para eu chegar ao mesmo número de anos de vida – e que, portanto, só faltam sete meses para subir ao altar. Mas não eram nove? Quem me roubou estes últimos dois meses? E eu nem tinha pensando que ainda iria casar com 20 e poucos anos – ou será tão próxima dos 30.
Estou cansada deste acelera, diminui, pára. Mas acho que é culpa do sono das noites que, às vezes, terminam cedo demais...
Coisa besta essa tal de memória afetiva. Dia desses me vi de olhos marejados ao ouvir a filhinha da Simonny cantando Ursinho Pimpão – agora veja se tem cabimento isso. Depois veio o aniversário do meu afilhado e lá foi meu namorado fazer a programação musical da festa, sem nunca parar de chamar pelo meu nome seguido de interrogações do tipo:
“E Ai meu nariz?” A resposta? “Ai meu nariz, atchim, ai meu nariz, atchim, ele parece muito mais um chafariz...”
“Dona Felicidade?” “Perguntei pro céu, perguntei pro mar, pro mágico chinês...”
“Pra ver se cola?” “Cola o teu desenho no meu, pra ver sola, cola teu retrato no meu e me namora...”
Mas nada foi como: “E Iô-iô, que música é essa?”. O vexame final: “Eu encontrei um brinquedinho divertido...”
Gente do céu, como é que eu fui entupir meu disco rígido com todas estas informações que, por mais que eu insista em deletar, continuam lá, impassíveis aos meus apelos, dando a menor bola possível para minhas tentativas de gravar outras coisas na memória?
A pior parte é que não são só as centenas de músicas da Xuxa, Trem da Alegria e do Balão Mágico que ocupam as velhas pastas do meu arquivo vivo (vivíssimo), mas as coreografias (vejam bem!) saem como se o tempo não insistisse em passar cada vez mais rápido.
O que me consola é que nunca deixarei de me divertir em festas infantis (nem na dos meus netos!), como aconteceu na festinha do afilhado, que se esbaldou de dançar agarrado com a caixa de som que tocava as mesmas músicas de quando era eu quem tinha dois anos.
E já começo a pensar em perguntar, assim meio sem querer, à cantora que contratei para animar meu casamento se ela costuma incluir algumas dessas músicas no seu repertório. Já vejo a noiva descontrolada dançando no meio do salão os passinhos de Ilariê – a música que com certeza todas as convidadas vão conseguir acompanhar.
Coisa besta esta tal de memória afetiva.
P.S. Mas ainda tem espaço para as novidades-novíssimas como “Temos o mundo inteiro no nosso quintal... Somos amiguinhos Backyardgans”. Ah, nada-fazência criativa essa minha...
Compra uma casa, menina, pra ter segurança pra vida toda. Escolha um bom homem pra chamar de seu – namoradinho, noivo, maridão, hoje, ontem ou pra sempre, tanto faz, desde que seja seu. Encontra um bom emprego, menina, para poder pagar a escola dos meninos e comprar o batom bonito na revista da Avon. Faça exercícios e se comprometa com o futuro de balzaquiana enxuta. Reze todos os domingos na capela, que Deus ajuda quem madruga.
Nem precisava disso tudo.
Bastava:
Encontre o caminho, menina, que te leve para onde você quer ir: amor no peito e dinheiro no bolso. O resto a gente dá um jeito.

Eu já tinha me apaixonado pelo Wall-E desde que Renato Félix me chamou para ver um clipzinho de divulgação do filme, lançado alguns meses antes dele chegar aos cinemas. Sei lá por que. Mas o encontro com este amigo virtual – aquele que você já conhece muito bem, mas não encontrou pessoalmente ainda – não poderia ter sido melhor: só botou ainda mais lenha na fogueira da minha paixão. E depois daquela noite de sexta-feira, quando sai da sala do cinema, eu já estava quase pronta para casar com o robozinho.
Pois então: além de uma linguagem muito simples, que faz a gente nem sentir o longo tempo do filme em que não há um diálogo falado sequer, com Wall-E convivendo apenas com uma baratinha. E mesmo o cenário horripilante – um mundo, literalmente, coberto de lixo – ganha um pouco de poesia com a atitude positiva do rapazinho. Ele não pára de trabalhar para cumprir sua missão: limpa, limpa e limpa, do amanhecer ao pôr do sol. E nos dá uma lição do que é necessário fazer para tentar salvar este planeta.
Mas Wall-E não é apenas lindinho ou ambientalista. É também uma boa lição sobre aonde o consumo desenfreado, as relações meramente virtuais e a mecanização total do mundo podem nos levar, sem esquecer do que pode acontecer se a gente simplesmente achar que a responsabilidade não é nossa. E, no final das contas, a obra é a melhor mistura entre um bom filme de entretenimento com um excelente instrumento para discutir estas questões com qualquer tipo de público – crianças, jovens, empresários, educadores...
E como não dá para querer casar com Wall-E – até porque eu já tenho um futuro marido muito bem escolhido – o que me resta é tentar aprender com ele a ser um bom cidadão. E limpar pelo menos a sujeira que eu mesma faço. Vale conferir.
Só para quem é de casa.
Agendado: 25 de abril de 2009, às 17 horas, Igreja de São Pedro e São Paulo. Mas o branco é exclusivo da noiva!
Agora começa a novela da escolha dos 160 top top da nossa lista incrivelmente grande de pessoas queridas. E uma longa espera pelo grande dia, que agora já se sabe quando será.
Digam o que quiserem, mas a única coisa que nunca saiu de moda no Brasil foi o Ibope. Entra estação e sai estação, tudo continua como antes: todo mundo se liga no que dá mais Ibope, criando um ciclo vicioso dos infernos movido pela crença de que “se todo mundo vê deve ser porque é bom”.
O Ibope tem o poder de dividir opiniões e ser execrado e acusado de démodé por quem está com poucos pontos de audiência, assim como quem está no topo costuma vangloriar-se de tal feito. Menos a Globo, que por ser hours concours desta disputa, “parece” nem se afetar pelos números.
Mas o brasileiro está mudando de hábito. Pelo menos era isso que garantia o convite enviado pela Rede Record aos convidados de uma grande festa promovida pela emissora na noite desta quinta-feira, dia 10. O motivo da festa? Ninguém sabia, mas já desconfiava. A Record está abocanhando a audiência da Globo no horário nobre do jornalismo. Não, eles não passaram na dianteira do Jornal Nacional, mas estão crescendo que é uma beleza. E já estão festejando com toda pompa possível!
Eu não sei onde isso vai parar. Primeiro foram as novelas. Agora a Record tem novela para todo gosto e horário, igualzinho ao que a Globo faz. Depois eles criaram o que minha irmã chama de “genérico para cada telejornal” da Globo. Até o Fantástico tem uma cópia bem acabada no canal do Edir Macedo. E não é de se espantar que o Jornal da Record esteja começando a se empolgar com a corrida para saber quem é o verdadeiro jornal nacional – desculpem-me o trocadilho infame, mas foi inevitável. O que esperar agora?
Como quem assiste a uma corrida de Fórmula 1, espero que o Felipe Massa consiga chegar na frente do Lewis Hamilton tantas vezes quantas for possível (esta é minha alegoria para aquele que está muito bem na batalha contra aquele que conta com o título garantido). Ver a Globo ser ameaçada, mesmo que de longe, por alguma emissora que não seja o SBT (que, por sinal, nunca foi tanto motivo de piada como atualmente) é sempre interessante para quem concorda que quase toda unanimidade é burra.
Esforços neste sentido não faltam. Apesar de estar apenas copiando o modelo Globo de fazer tudo, a Record parece-me estar fazendo direitinho a lição de casa, apresentando um jornalismo interessante e bem feito, inclusive visualmente. Até a Fabiana Scaranzi, a ex-moça do tempo global, já se bandiou para lá, sem falar num monte de outras gentes ainda mais competentes, como Paulo Henrique Amorim. E até mesmo a Ana Hickman, vejam só, não tem feito vergonha ao lado do novo Brito Júnior, que agora pode fazer piadinha no seu programa de estrondoso sucesso – que também começou como cópia da Ana Maria Braga, mas já provocou até mudança de diretor do programa global e se consagra hoje como a melhor opção das manhãs na TV brasileira. Interessantíssimo.
Resta-nos esperar o que mais vai acontecer nesta briga de Davi contra Golias sem que saibamos mais quem é quem – ah, estes paradigmas que, graças a Deus, teimam em ser inconstantes... Porque o Ibope, meus bens, este sempre continuará no auge.
Antes das 8h da manhã. Ela enfia as mãos no balde cheio de água e sabão, segura com alguma delicadeza o pano escuro e esfrega, esfrega, esfrega. Levanta o pano num sopapo, joga dentro de um balde menor com água limpa e sacode, sacode, sacode. Puxa o pano escuro da água limpa e torce, torce, torce. Lavar lençol leva tempo, dá trabalho e exige espaço para estender. Na falta de varal, ela soluciona rápido o problema: usa a grama como quarador e estica cada uma das quatro pontas do pano escuro sobre o verde amarronzado – choveu um pouco na madrugada e todo mundo sabe como fica a grama depois de alguma chuva.
Serviço feito, ela volta aos baldes, dispostos sobre um banco largo, e sem a menor cerimônia tira a própria blusa de mangas, expondo o corpanzil enorme e banhudo que sobra pelos cantos de um top cor de laranja. Fica só de saias e recomeça o ritual: esfrega, sacode e torce, da mesma forma truculenta e na mesma velocidade alucinante que usou com o lençol escuro. E depois estende a roupa no quarador embebido de lama da chuva de ontem.
Depois ela pega outro balde cheio de água limpa e derruba sobre si mesma. De nada serve uma roupa limpa sobre um corpo suado. Tira de um potinho o que vai se transformar em muita, muita espuma no cabelo, que depois, ainda molhado, é desembaraçado lentamente com um pente. O que resta da água se une ao sabonete para lavar as pernas e os pés calçados em uma havaiana – legítima!
Enquanto espero pacientemente pelo ônibus na Praça da Independência, ainda tive tempo de ver a lavadeira ali, a menos de cem metros, tirar de baixo da própria saia uma outra e começar tudo de novo...

Lafi, um cão feroz - quem diria?
Por Redação Yahoo! Notícias
Qual é o cão mais feroz do mundo? Pensou nas raças pitt bull ou rottweiller? Então errou. De acordo com uma pesquisa feita pela publicação científica Applied Animal Behavior Science, e divulgada pela BBC, o cão mais feroz do mundo é o dachshund, mais conhecido como "cão salsicha". Segundo a pesquisa, um entre cinco "salsichas" já tentou atacar ou atacou estranhos, e um entre 12, já avançou nos próprios donos. O levantamento, feito com 6 mil donos de 30 raças de cães direfentes, constatou que as raças com mais tendência a atacar humanos são dachshund e chihuahua. Já os cachorros menos agressivos são os das raças golden retrievers, labradores, são bernardos, britanny spaniels e greyhounds.
As raças mais temidas, comos os pitt bulls e rottweillers, ficaram na média de agressividade canina contra estranhos. A má fama destas raças se dá ao fato de os ataques destes cães causam ferimentos mais graves, dizem os especialistas. E apesar de toda imponência das raças maiores, os pequenos cães costumam ser os mais agressivos. O que diferencia a pesquisa publicada pela Applied Animal Behavior Science das demais, é que ela não associa a agressividade canina necessariamente à mordida, informou a BBC.
Confira as dez raças mais ferozes:
1. Dachshund
2. Chihuahua
3. Jack Russell terrier
4. Akita
5. Pastor australiano
6. Pit bull
7. Beagle
8. Springer spaniel inglês
9. Border collie
10. Pastor alemão
O que é que se faz na hora livre do almoço?
Vai-se ao banco pagar contas ou fazer saques? Aproveita-se para olhar as vitrines em busca de um presente – mesmo e principalmente que seja para si mesmo? Ou simplesmente espicha-se as pernas no primeiro banco de praça que passa pela frente para esperar o tempo passar no ócio permitido no meio do dia?
Quem se acostuma a correr contra o tempo, mesmo que nunca tenha-se perdido da sua preguiça crônica, demora uma vida para saber o que fazer das horas vagas. E quando elas passam de raras a sistemátias, danou-se...
Aguardo sugestões.
P.S. Durante os últimos três anos me acostumei a comer quase de pé para não perder tempo – eu sempre estava fugida do trabalho. E agora que tenho hora de almoço, não sei o que fazer com ela, vejam só. Ah, desaceleração que não chega nunca...
Era fim de junho. Então foi assim.
Acordei mais tarde que de costume, tomei o velho banho e coloquei uma roupa toda nova. Usei as últimas gotas do velho perfume – e me perfumei inteira. Segui no velho ônibus, e cheguei pronta para o último dia.
No anoitecer, preparei-me como todos os dias, mas não mais para a velha rotina – o que aguardava na manhã seguinte era mais que um novo dia, era uma vida nova...
A vida de repórter entrou, pela primeira vez, no baú das recordações.
E agora só resta uma doce saudade.

Ubirajara Silva, aprovado no concurso do BB em Recife. O que ele tem de diferente?
Eu sempre acreditei em milagres. Mas acreditei (sempre) muito mais no resultado do esforço e determinação de quem precisa de um milagre. Deus ajuda quem cedo madruga, não é? A prova disso eu vi nesta manhã de sábado, no portal de notícias G1, diante da foto do recifense Ubirajara Gomes da Silva, aprovado na 136ª posição entre 171 classificados no concurso do Banco do Brasil para Recife. Acontece que Ubirajara mora há 12 anos nas ruas do bairro das Graças, na capital pernambucana, só conseguiu o diploma do ensino médio depois de fazer o supletivo e estudava nas praças e bibliotecas públicas através de apostilas e provas que ele acessava em locais que ofereciam internet gratuita. Aliás, foi assim que ele descobriu o edital deste e de outros quatro concursos que fez nestes últimos dois anos. Ele é O Cara. E não tem como não se comover com um exemplo de dignidade como este.
Eu sempre acreditei em milagres. Mas acreditei (sempre) muito mais na educação e no estudo como fonte de solução para todos os problemas deste país.

Eu gosto de observar meninas se olhando no espelho. Não qualquer menina, mas aquelas que estão entrando na adolescência, que ainda têm um traço de menina de verdade, enquanto buscam no espelho a mulher que elas querem já ser. Dia desses uma dessas sentou-se ao meu lado no ponto de ônibus. Num início de tarde frio, onde tudo mais já seria contemplação, parei meus olhos nos cabelos lisos da menina calçada num all star e vestida em camisa de farda. Durante 15 minutos, enquanto eu esperava pacientemente meu ônibus, a menina tentou dar um jeito numa franja recém cortada. Puxou de dentro da mochila uma escova, que não dava jeito diante do pequeno e redondo espelho que insistia em mostrar “como ela estava feia com aquele cabelo horroroso”. E prendia com presilha, e soltava, e escovava, e arrumava com as mãos, sossegava, desistia, recomeçava, em um ritmo sem frenesi, com olhos que se dividiam entre o espelho e a direção de onde o seu ônibus também viria. Até que desistiu. E já que o vento frio insistia em desfazer tanto trabalho, abandonou os fios à própria sorte, guardando o espelho e a escova de volta na mochila. Foi quando meu ônibus chegou e, silenciosa, desconcentrei da menina.
Por José Teles, com correções ortográficas deste blog
“Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!”. A maioria das moças levanta a mão.
Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas as bandas do gênero). As outras são 'gaia', 'cabaré', e bebidas em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.
O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhando uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de 'forró', e Ariano exclamou: 'Eita que é pior do que eu pensava'. Do que ele e muito mais gente jamais imaginou.
Pruma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.
Porém, esta 'esculhambação' não é culpa exatamente das bandas ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shorts começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour e a facilidade estética pegaram em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.
Aqui o que se autodenomina 'forró estilizado' continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista dessas bandas de 'forró', em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem 'rapariga na platéia', alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é 'É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!', alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.
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